Uso do celular e o impacto na fertilidade

por João Michelon, ginecologista do Fertilitat - Centro de Medicina Reprodutiva

O Brasil é um dos líderes mundiais no uso de telefones móveis. Aqui, o número de celulares excede o de habitantes. Há décadas, muitas pesquisas buscam avaliar os efeitos adversos da radiação eletromagnética dessa tecnologia sobre a saúde humana. Recentemente, um estudo apontou que há efeito prejudicial desta radiação não ionizante sobre a reprodução humana. Vale também para a rede sem fio conhecida como wireless.

Uma pesquisa mostrou que a radiofrequência dos aparelhos celulares prejudica a qualidade dos espermatozoides. Há impacto sobre a motilidade e a morfologia espermática, condicionados pelo efeito térmico e não térmico sobre os testículos, que, por serem órgãos superficiais, absorvem mais energia radiante. Ocorre ainda produção de radicais livres no esperma, além de estresse oxidativo, o que favorece a fragmentação do DNA espermático. Isso, somado aos demais fatores, tem importância na etiologia da infertilidade masculina. Os efeitos negativos estão diretamente relacionados ao tempo e à maneira que se usa o aparelho. Quando carregados nos bolsos das calças, os celulares oferecem maiores riscos.

Em testes, verificou-se que ratos (machos e fêmeas) expostos a radiofrequência celular de uma a dez horas diárias, em modo stand-by, apresentam pior prognóstico reprodutivo. Observou-se um decréscimo significativo na produção de embriões no primeiro estágio de clivagem para duas células e maior número na parada de desenvolvimento embrionário. O índice de “embriões de boa qualidade” também diminuiu significativamente. Naqueles que sofreram maior radiação em stand-by, ou em uma hora diária no “modo ativo”, houve diminuição expressiva de nascimentos. A duração da gravidez também foi maior.

Um outro estudo, com ratos expostos a ondas eletromagnéticas de aparelhos celulares de terceira geração, por 60 minutos, não encontrou alterações significativas na fertilização in vitro. No entanto, parâmetros como taxa de fertilização, clivagem embrionária e formação de blastocistos tiveram piores desfechos, principalmente quando os espermatozoides receberam radiação, parecendo sofrerem mais o impacto do que os oócitos.

Para além do efeito térmico das ondas de radiofrequência, a diminuição do sistema antioxidante e o aumento dos radicais livres – que configuram o estresse oxidativo – provocam uma cadeia de eventos biológicos, incluindo danos à membrana das células sexuais. Isso também pode levar a uma significativa falha reprodutiva.

Não podemos negar os benefícios que os telefones celulares nos trouxeram: a portabilidade, a mobilidade, os recursos inteligentes etc. O uso excessivo, no entanto, pode nos deixar em estado de frenesi, vício ou mania, a ponto de se tornar uma ameaça à saúde. Portanto, para crianças, jovens e adultos em fase reprodutiva, é fundamental usar essa tecnologia fantástica com inteligência e moderação.

 

 

 

 

Cláudia Paes
Jornalista

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